quinta-feira, 9 de maio de 2013

As Bongas


Musica no ar.

Ao longe o barulho das ondas.

Na Baía das Gatas.

Pela estrada fora cantam as irmãs.

Doce inocência!

Risos ao vento cristalizados no tempo.

O cheiro do mar e de óleo de amendoas doces.

O doce sabor do sal na boca.

****


Música no lar
Lar, o lindo sorriso da Maria Rita.

Lar, a casa das fatias douradas à tarde.

O jogo da malha do quintal.

a clarabóia do quarto cor-de-rosa.

As aventuras, os mistérios do mundo.

No Quartinho do quintal, os Baús de outras Vidas.

O eco no tempo dos sons da Varandona,

Os passeios ao Gud.
Os meninos de Fonte Cónego,

****

Música no ar

O cântico da Igreja do Sr. Ramos.

A bolacha doce das Loja do Nhõ Cób, Nhô Móne...

Tempos dos melhores doces,

O laborioso Rebuçado da eterna dona Belóta.

A fresquinha de tamarindo da Dona Inácia.


****

Música, o rítimo dos projectos de vida.

O  trabalho, os sonhos prometidos e os planos adiados,

As Surpresas Raras, certas.

Que futuro?

No quotidiano, a  luta e a esperança…

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mindelo sobrenatural - Lenda de Catchorrona




Yolanda pensava seriamente em aventurar-se pela noite dentro com a bebé ao colo, a cabeça ia a mil a horas, não havia outra solução, já estava decidido, ficar em casa estava fora de questão.

Eram por volta das 19 horas de um mês de Outubro, nesses dias o tempo é fresco ao cair da noite, mas isso não era nada. Andar pelos becos das zonas de Mindelo, numa noite de geada seria um acto de coragem ou apenas a inconsequência de cega paixão, o ciúme, o desespero de ser mãe só?

Algumas horas mais cedo, Yolanda, menina de 23 anos de idade, recém-casada, mãe de uma filha de dez meses, havia arrumado a casa, preparado o almoço, tinha brincado com filha, sentindo-se por vezes muito feliz e, por outro lado, uma dor de saber que tal felicidade estava marcada.

Yolanda deixara o trabalho de doméstica porque José fazia plantão à frente do serviço dela todos os dias. Sentia-se de tal forma pressionada que tinha de largar tudo pelo meio. Assim ela não durou em nenhum trabalho.

Amar significaria mesmo aguentar violência psicológica e física por parte do seu amado companheiro? Tal questão assombrava a mente de Yolanda que desesperadamente tentava agarrar-se à réstia de felicidade que via naquele lar, símbolo do seu sonho de amor.

José chegou a casa, não larga o telemóvel, bate furiosamente em Yolanda quando descobre que ela toma pílulas anticoncepcionais, derruba a comida da mesa, toma banho, perfuma-se e sai outra vez, como faz todas as noites à mesma hora.

As más-línguas contaram a Yolanda que o companheiro tinha uma amante na zona da Ribeirinha. Desta vez, Yolanda decide sair atrás do marido. Estava cansada porque o dia tinha sido puxado mas naquele momento apenas sentia uma energia frenética que a conduzia e podia observar de longe os passos do marido.

José, de 28 anos de idade, homem trabalhador, admirado pelos amigos e simpático com os vizinhos, não tardou, fez uma pausa numa tasca onde permaneceu por um instante continuando depois o passeio sem dar conta da sua mãe d filho que o perseguia silenciosamente. Finalmente chegou a uma casa onde parou e chamou à porta.

O coração de Yolanda acelerou-se ainda mais quando viu que o companheiro fora atendido por uma mulher. A dona da casa onde ele ia todas as noites. Afinal ele tinha ido mesmo visitar a tal amante, os rumores eram verdade, pensou.

Yolanda ficou ali à espera que ele saísse, desistiu, ele não saía. Voltou para casa, certa do que vira, triste e apressada pois, a filha estava exposta. O caminho de casa pareceu-lhe longe, o peso da dor no coração tornavam vagarosos os passos que minutos atrás eram ágeis e rápidos. A noite parecia mais escura do que nunca, havia que continuar e já se sentia petrificada. O silêncio ensurdecedor fazia ondas ópticas no chão, a rua parecia ter começado a respirar e a mexer-se como se tivesse vida própria. Repentinamente avistou um cãozinho castanho, mas não deu a mínima importância. As ruas pareciam cada vez mais desertas, quando deu por si estava sendo acompanhada por um cão maior e castanho.

Seria o mesmo cãozinho de há pouco? Yolanda lembrou-se das histórias das “Catchorronas” (seres sobrenaturais com aspecto de cão gigante que atacam as pessoas à noite). A lenda dizia que o certo a fazer é meter conversa com o cão, fazendo perguntas como.”O que fazes por aqui?” e nunca mostrar medo, caso contrário, a coisa pode abafar uma pessoa fazendo com que ela fique “inocente” para o resto da vida.

Faltava pouco para chegar a casa, tudo controlado, nada de medo, mas o cão havia triplicado de tamanho. Seguindo os preceitos de segurança relativos à lenda, Yolanda conseguiu abrir a porta sem dar as costas ao bicho. Ao entrar em casa sentiu um bafo que entrava por baixo da porta, uma força inexplicável que a puxava para fora e um barulho tal que parecia o desabar dum monte de pedras da calçada.

A sabedoria popular diz que as catchorronas são os espíritos de mulheres que em algum momento da vida fizeram aborto voluntário. Conta a lenda que a mulher que aborta não tem paz depois de morrer, pois o seu espírito tem de ficar na terra para pagar penitência, assim transforma-se em “catchoorrona” e tem de permanecer dessa forma  até cumprir o tempo necessário para criar o filho que abortou quando era viva.