quinta-feira, 28 de junho de 2018

A mulher no mundo e os mecanismos formais e informais de escapar à opressão do sistema.



Este texto consiste num percurso da condição mulher pelo mundo, destacando sempre a diferença entre período pré colonial e o pós, pelo facto do colonialismo como sistema económico e político ter influenciado profundamente o imaginário dos povos.
O texto está dividido nos seguintes assuntos:

- A mulher indígena da América.
- O uso do Véu no mundo islâmico, um direito negado às mulheres islâmicas pelo mundo ocidental.
- A “não vida” da mulher asiática.
- A poderosa mulher Igbo da África.
- As raízes da misoginia cabo-verdiana.

Para entender o lugar da mulher na sociedade é preciso conhecer a relação entre seus pares (companheiro, filhos, familiares). Há que conhecer a formação da sua identidade, seus grupos sociais e seu posicionamento.
Antes da chegada dos colonizadores europeus, a América era, habitada por uma multiplicidade de povos com costumes e línguas diferentes há mais de 15 mil anos. É possível detetar em várias culturas pré-hispânicas a participação ativa e importante das mulheres nas instituições e nas actividades guerreiras.

Guerreira Boliviana Gregoria  Apaza

As mulheres indígenas sofreram brutalmente com a marginalização, a escravidão e a violência sexual cometida pelos colonizadores. Nesse sentido, a chegada dos europeus alterou profundamente os papéis que essas mulheres exerciam no interior de suas organizações sociais.
A mulher indígena era vista como mulher selvagem e com presença do Diabo. O objetivo do Brasil colonial era abafar a sexualidade da mulher, pois esta era contra as leis do Estado, da Igreja e dos pais
Se a mulher se tornasse cúmplice da vergonha, o homem estava obrigado retalhar o comportamento dela para recuperar a honra.

O uso do Véu no mundo islâmico, um direito negado às mulheres islâmicas pelo mundo ocidental
Quando se trata de mulher muçulmana, o véu islâmico adquire proporções significativas no imaginário social. É comum que as pessoas se perguntem o que faz as mulheres usarem essas vestimentas tão diferentes das que estamos acostumadas no ocidente.
O uso desta vestimenta é cada vez mais estigmatizado pela sociedade e pelos meios de comunicação.
Em 13 de julho de 2010, o governo francês – com base no projeto de Lei nº. 524 – passou a proibir o uso da burca (vestimenta islâmica usada no Afeganistão e no Paquistão) em vias públicas, em lugares abertos ao público e nos destinados aos serviços públicos.



Para os direito Humanos, considerar que toda mulher que usa burca é submissa e deve ser “salva” pelos ocidentais é tão violento quanto obrigá-la a usar tal vestimenta. A proibição do uso destas vestimentas islâmicas esconde um discurso “civilizacional” e “ideológico”

Leila Ahmed (1992), em seu livro Womem and gender in Islam Um dos pontos interessantes do seu trabalho é considerar que no Egito a dominação masculina foi muito mais “branda” quando comparada à Grécia e à antiga Mesopotâmia, devido à influência europeia e cristã naquele país e também aos sentimentos de igualitarismo, humanismo e justiça, contribuindo assim para uma melhor relação de gênero. (AHMED, 1992 p.33)

(Lila ABU-LUGHOD, 2012) vai além e diz que o Taliban não inventou a burca no Afeganistão; na verdade, a burca foi uma das muitas formas de cobertura que se desenvolveu no subcontinente e sudoeste da Ásia como uma convenção que simboliza a modéstia das mulheres ou respeitabilidade. Cobrir o rosto em determinados contextos significa maneiras de demonstrar autorespeito e posição social
Fatema Mernissi apresenta o véu não como algo depreciador do sexo feminino, mas como algo diacriticamente contextualizado e vinculado ao reconhecimento da identidade cultural e feminina de determinado grupo social.

A “não vida” da mulher asiática
A mulher asiática sempre foi vista como submissa e virtuosa, é esperado que elas guardem a virgindade até ao casamento, devem assumir as tarefas domésticas, ser fiel e servir o marido. Ela tem dificuldade em exercer os seus direitos legais. Os países asiáticos mais violentos para a mulher são Ìndia, Paquistão e Afeganistão.
Em geral, muitas mulheres na Ásia são consideradas mercadoria ou um peso. Quando o dinheiro é pouco, elas são as últimas a comer. Na Tailândia elas são vendidas a agentes que as revendem para prostituição.
Na China, mundo rural ainda há regras que restringem o papel da mulher, embora elas sejam maioria no mundo urbano, sendo maioria absoluta em muitos cursos, a maioria das urbanas têm ensino universitário, fala inglês e já visitou outros países.
Na China, a prática da amarração dos pés consistia em quebrar os pés da criança em 4 partes distintas, depois dobrado e enfaixado com o objetivo de atingir 7 a 10 cm. As mulheres que não tinham os pés amarrados não conseguiam bom casamento, por isso eram humilhadas pela sociedade. Em 1911 esta prática foi abolida.

Mulher chinesa com pés amarrados        

A cultura da violação constitui uma arma de guerra. Com a violação, a consequente miscigenação acabava com os grupos étnicos. Esta prática era levemente considerada como um efeito colateral da guerra por isso perdura a cultura da violação, do machismo e da misoginia.
Durante a segunda Guerra mundial, havia casas de conforto com escravas sexuais no Japão, na China, nas Filipinas, na Nova Guiné e no Taiwan.
Em 2015 a china aprova a lei contra a violência da mulher mas muitas consideram tal lei inútil. Na china 1 em 4 mulheres são vítimas de violência domértica. A mulher chinesa quando chega as 30 anos solteira, ela é pressionada para casar. Muitas procuram agencias de matrimónio.

A poderosa mulher Igbo.
    Mulher Igbo

O povo IGbo são um dos maiores grupos étnicos que habitam o leste, sul e sudeste de Nigéria, além de Camarões e guiné equatorial. Foi o povo mais atingido pelo comércio de escravos
Tanto a mulher como o “outro” colonizado estão no mesmo patamar porque ambos estão fora da estrutura que detém o poder, sendo portanto, marginalizadas
Para a antropóloga Ifi Amadiúme, o género em Africa implica não só o o lado biológico como também o papel social do indivíduo. A antropóloga destaca a flexibilidade das relações de género observada na possibilidade da mulher se tornar esposa de outra mulher. E essa flexibilidade se reflete também na linguagem, pois existe o masculino, o feminino e o neutro.
No período pré-colonial a mulher controlava a economia de subsistência, era responsável pelo cultivo de alimentos. Elas administravam seus negócios através de sistemas e mecanismos que envolvia uma poderosa maquinaria que consistia em “associações da filhas”, “associações das viúvas”, etc. Atrsvés dessas associações elas alcançavam o poder. De notar que os homens não se organizavam em associações
Muitos autores caracterizavam a sociedade Igbo como democraática. As mulheres trabalhadoras eram altamente valorizadas.
A filhas-machos igbo, eram aquelas que ficavam na casa dos pais, tinham o poder de presidir os negócios dos pais até que seus  filhos crescessem e assumissem o controle.
Os maridos fêmeas - O casamento entre mulheres com filhos ou sem eles era uma intuição que dava prestígio social. Casar com uma mulher permitia mais lucro dado que era elas que trabalhavam no cultivo.
Essas instituições permitiam às mulheres escapar à opressão masculina pois a sexualidade feminina era tabu, não havia homem mau mas havia mulher má (aquela que não dava de comer ao marido). A colonização Inglesa veio reforçar essa opressão.

As raízes da misoginia cabo-verdiana
De acordo com António Correia e Silva, a situação martirizante da mulher cabo-verdiana atual tem suas raízes no passado, na formação da nossa sociedade.
O senhor dos escravos e seus filhos apesar de estabelecerem família com as mulheres europeias, também usavam as escravas para o prazer sexual.
As relações entre os homens e mulheres escravos eram frágeis devido à dificuldade de se manterem unidos dado ao sistema escravocrata.
Para o autor a repetição incessante destas práticas ao longo dos séculos, contribuiu para a formação do imaginário feminino de hoje.
Segundo Correia e Silva, apesar da opressão tanto a escrava como as esposas europeias encontraram formas de contornar o sistema misógino colonial. Muitas viúvas de senhores colonias se tornavam senhoras das suas propriedades. As escravas, por outro lado, viam as relações com os senhores como uma forma de alcançarem a carta de alforria para elas e seus filhos.
Podemos arriscar uma afirmação, não menos pacífica, que a prática inteligente das escravas ainda perdura através da concorrência entre mulheres da atualidade, aquelas que reproduzem o machismo de modo inconsciente para a sua suposta “sobrevivência”.

Bibliografia

Obra
- DILEMAS DE PODER NA HISTÓRIA DE CABO VERDE, 2013, António Correia e Silva
Artigos
- AS MULHERES INDÍGENAS NAS LUTAS CONTRA A OPRESSÃO E DOMINAÇÃO COLONIAL NO PERU (SÉCULOS XVI-XIX) Susane Rodrigues de Oliveira Rev. SBPH v.8 n.2 Rio de Janeiro dez. 2005
- DIÁLOGOS SOBRE O USO DO VÉU (HIJAB): EMPODERAMENTO, IDENTIDADE E RELIGIOSIDADE  Francirosy Campos Barbosa FERREIRA, USP
- A MULHER E SUA POSIÇÃO NA SOCIEDADE: DA ANTIGUIDADE AOS DIAS  ATUAIS Glauce Cerqueira Corrêa da Silva1; Luciana Mateus Santos2; Luciane Alves Teixeira3; Maria Alice Lustosa4; Silvio César Ribeiro Couto5; Therezinha Alves Vicente6; Vânia Pereira Fagundes Pagotto7 Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro
- FEMINISMO ASIÁTICO: IDENTIDAE, RAÇA E GÉNERO,  Caroline Ricca Lee

sexta-feira, 24 de março de 2017

A humanidade é o sonho de consumo


Temos pessoas “muito humanas” e temos aquelas que são desumanas. Ser humano não significa apenas pertencer a uma espécie de mamíferos é também um elogio, um estádio do ser considerado supremo, inatingível. Já a etapa”sem um pingo de humanidade” significa estar-se perante uma outra espécie que ainda não foi classificado pela ciência mas que o povo classifica de troglodita ou besta etc.
As pessoas do bem são humanas e as do mal são desprovidos de humanidade. Vejamos uma variada gama sinónimos de humanidaade: Caridade, benevolência, compaixão, etc.  Você classificaria o famoso presidente Trump de “muito humano”?. Das duas uma, o planeta está a ser dominado por não humanos ou então a humanidade negou-se como tal com base no sonho do humano com H maiúsculo, que já não existe (será que algum dia existiu?). Ou somos apenas monstros em crise de identidade?




quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Hoje de manhã e a vida, o relato.


Pela manhã em jeito de bom dia labuta, lá vamos nós.
No momento da saída, à porta, eis o que me soa na RCV:
A música do Kenny G, aquele melódico saxofone apaixonado.
Ai esses momentos em que a imortalidade se manifesta assim,
tal como o abrir de um portal inter-dimensional
que atinge a garganta com um nó e o coração com um bater intenso.
Eu ali imóvel e o bebé ao colo com cara de interrogação. Então?
Queria sair logo, queria ouvi-la até ao fim…
Enquanto isso era bombardeada com imagens daquelas tardes de sábado, da laginha, dos dizeres da moda, passando pela Praça e o Pimm's.
Accionou-se também o arquivo dos imutáveis sorrisos amigos .
A melodia Kennygiana era o hit do Verão, o som confortante do tempo de escola…
Uma espécie de símbolo da inocência mundial daquele tempo...
Enfim… não fiquei até ao fim, mas ainda sinto a diferença que faz uma música dessas no início do dia e na vida inteira.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

“Viver… A carne viva de viver”

A chave parecia um bichinho a saltitar nas mãos escorregadia de Manu. A fechadura, por sua vez, esquivava-se daquele objecto que se aproximava para activar o seu engenho. Acabara de chegar de uma festa de aniversário do Jonas, amigo de infância. A festa estendera-se até ao Syrius, onde dançou até amanhecer. Afinal foi apenas uma noitada que ficou para trás levando consigo a promessa de tempo eterno escondido algures numa gaveta flutuante irremediavelmente invisível. Manu, de personagem imponente da noite, passa a mero deslocado que acabou de ser cuspido para ambiente diurno, caseiro e familiar. Entra em casa esmagado pelo peso da luz do Sol. Casa, esse lugar que emana uma beatitude aos olhos de Manu que observa tudo à volta embriagado de tanto real. Esgueirou-se pelo quarto diariamente nocturno e o seu corpo em metamorfose despiu as vestes de criatura da noite. Despertou-se com o tilintar dum feixe de luz do sol que entrara por entre as cortinas, tentando passar despercebido, como acontece com a maioria dos espectáculos naturais do nosso quotidiano. Um feixe de luz em jeito de sinal divino, pensou Manu, era mesmo disso que precisava, um pedacinho amigo do astro solar em todo o seu esplendor. Não tardou, sentou-se na cama, e sentiu o conforto desse novo pensamento, uma espécie de certeza conformada da finitude da vida que é bela nas suas supostas contradições e é também uma dádiva. Afinal, o nocturno o diurno são o mesmo mundo, tal como o bem e o mal, o ying e o yang; as raízes da mesma árvore …