quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Mitos e Realidades sobre a carta na manga denominada “Descentralização”





Mitos e Realidades sobre a carta na manga denominada “Descentralização”

Quando os locais apoiam a centralização do poder em benefício próprio e em detrimento do desenvolvimento da própria ilha. 

Amigos, tenham muito cuidado quando ouvem o termo descentralização pela boca dos políticos no poder. Nem sempre o termo é utilizado no seu verdadeiro sentido da palavra, melhor dizendo, na maioria das vezes é utilizado como uma forma de lavagem cerebral levando a crer que se está a trabalhar no projecto “descentralização”. Ilusionismo. Na verdade, Cabo Verde faz parte dos países africanos pós-coloniais em que os partidos que ficam muito tempo no poder têm tendência a acumular vícios e problemas de governação como o clientelismo e o nepotismo  Por isso, não convém descentralizar o poder ou dispersar o bolo.

Vejamos o exemplo de Angola: Citação de Belarmino Jelembi, Director Geral da Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente de Angola numa entrevista realizada pela revista África 21 (Dez.Jan 2013).
África 21 – Quais deverão ser as prioridades do Governo nos próximos cinco anos?
Belarmino Jelembi - “O Governo tem um grande desafio: Acelerar o processo de descentralização. A excessiva centralização está a corroer a administração pública, a aprofundar o tráfico de influências e a frenar o desenvolvimento”.

Como podemos caracterizar Cabo Verde no que toca a descentralização de poderes ou a ideia de regionalização ?
Onésimo Silveira afirma o seguinte numa entrevista cedida à revista Vozes das ilhas:
- Vozes das ilhas: “Já temos uma corrupção endémica instalada?”
- Onésimo Silveira: “Com certeza, existe um paternalismo que se instalou na nossa máquina estatal que é produto de uma cópia do que se passava aqui no período colonial. O nosso sistema de partido vai explodir um desses dias porque é feito de base clientelar. O partidarismo vai arruinar Cabo Verde se não dermos a devida atenção ao que se está a passar. Para quem está lá fora, está tudo a correr muito bem. Mas eu estou preocupado com o nosso sistema de governo. E muito preocupado mesmo. Sobretudo com o facto de que nós não analisamos a política considerando-a como um facto que está em permanente desenvolvimento, que há uma dinâmica política muito própria. Nós, simplesmente não paramos para ver isso.”

Alguns locais começam a perguntar: Quando é que passamos de comemorações descentralizadas para a verdadeira descentralização do poder? Quando é que os oponentes param de digladiar para o melhor show ilusionista de magia descentralizada? Que bandeira será a pioneira no lançamento da primeira pedra legal e estruturante de descentralização do poder?


Em Cabo Verde testemunhamos o uso abusivo dos recursos pelos do poder e para iludir os que querem ser iludidos, inventa-se a implementação de políticas falsas com designações dúbias como por exemplo: o empreendedorismo, o cluster, o empoderamento e outros palavrões que no fundo são promessas que deixam o povo na expectativa até o final dos tempos.

 “Descentralização” é um palavrão de diamante que todos os políticos, os no poder e os no na sala de espera, querem utilizar sob a forma de truques de magia variados. Vejamos alguns exemplos:

-Quando recorrem ao termo: “Jornadas descentralizadas” querem dizer na verdade viagem de serviço ou festa, eu vai dar ao mesmo. Ora para se realizar jornadas descentralizadas primeiro é preciso tornar a “descentralização” numa realidade quotidiana. Se ela não existe então o termo é utilizado apenas nas ocasiões festivas.

- Outra forma de magia é a utilização do truque da comemoração de datas importantes de forma descentralizada, como quem diz: “Olha, nós somos tão descentralizados que a comemoração de data X não vai ser na capital do país.” Ou seja, que vai ser comemorada em grande (com Viagens de serviço constituídas por comitivas de dezenas e dezenas  de pessoas da base ao topo da pirâmide).

Pela altura dessas comemorações/viagem descentralizadas os anfitriões (aqueles locais gulosos que cinicamente apoiam a centralização de poder em benefício próprio), desdobram-se organizando recepções, encerramentos, almoços e jantares.

Os locais gulosos que passam o ano no marasmo, são abençoados pela presença das figuras deificadas. Os deuses gloriosos centrais, que por acaso, conseguiram uma brecha na agenda para realizar a tal viagem de serviço descentralizada. Tudo acontece num ambiente de brilho e glamour autêntico com muito movimento de pessoas chiques de olhar vago e de nariz empinado estabelendo grandes conversações com os felizardos anfitriões que ficam à espera dessas ocasiões para usarem as suas melhores fatiotas. É o ballet  decadente da “descentralização”.




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Fenómeno Mandinga no Carnaval Mindelense - Crítica social e afirmação identitária

Carnaval - Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C. – cultos de agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção.
Passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica em 590 d.C - É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média
O período do Carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou do latim "carne vale" dando origem ao termo "Carnaval". O período do Carnaval caracterizava-se por uma concentração de festejos populares. Cada cidade brincava a seu modo, de acordo com seus costumes.
O Carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo.

O Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio, Mindelo.
Rodrigues afirma que a “Tradição carnavalesca cabo-verdiana não é recente, mas um pouco antiga. A festa, como se realiza na ilha, é um produto essencialmente urbano com as suas raízes nos subúrbios do Mindelo. Tem a sua origem no Entrudo português”(Rodrigues, 2011)

Carnaval – Festa
A festa consiste no rompimento com as preocupações da existência quotidiana, é um outro mundo, onde o indivíduo se sente amparado e transformado por forças que o ultrapassam. No quotidiano o indivíduo dedica atenção, paciência e habilidade às tarefas de satisfação às necessidades imediatas. Enquanto a festa figura para ele, para sua memória e para seu o seu desejo, o tempo das emoções intensas e da metamorfose do ser.

Carnaval – Ritual
Qualquer tipo de ritual utiliza uma linguagem, verbal e/ou não-verbal, condensada e repetitiva, diminuindo assim a ambiguidade da mensagem. O ritual sempre diz alguma coisa sobre algo que não é o próprio ritual. Ou seja: o ritual, por si só não é suficiente para a apreensão do sentido. (Leach, 1972).

Mandinga, fantasia que revela inversão de papéis.
Às vezes basta pintar a cara, ter a maquilhagem mais exagerada de maneira a “parecer outra pessoa, bem arranjada com gosto”, para se sentir dentro da festa. (abandona-se o eu-isolado e para só contar o eu-colectivo irresponsável, integrativo) (Rodrigues, 2011).
A fantasia revela então, outra face do indivíduo:
[...] fantasia carnavalesca, revela muito mais do que oculta, já que uma fantasia, representando um desejo escondido, faz uma síntese entre o fantasiado, os papéis que representa e os que gostariam de representar. (Da Matta, 1997)

Origem do Fenómeno Mandinga no Carnaval mindelense, contextualização sócio-económica e política
As secas nos anos 20 levam ao aumento da migração das outras ilhas para São Vicente, gente à procura de trabalho que não encontra. Tempo marcado por falta de habitações e habitações precárias e de instabilidade social.
Em 1929 circulou um protesto contra o Governador da Colónia entre alguns professores do Liceu.
Em 24 de Janeiro houve uma manifestação. A tentativa de organização sindical falhou. As autoridades centrais agiram com os seus meios de poder contra a opinião popular.

Apesar de algumas medidas de melhoramento de infraestruturas habitacionais e sanitárias de carácter social, a situação da ilha agrava-se nos anos 30. A crise mundial leva à diminuição do movimento marítimo. O regime fascista de Salazar desenvolveu a repressão contra qualquer forma de oposição. Em 1933 aprovou-se o estatuto da dissolução do Sindicato dos trabalhadores e o código penal de crimes de rebelião.

A revolução de Nhô Ambrose – Prova as dificuldades do povo como a grande coragem dos manifestantes.
O país viveu a década de 40 com grandes dificuldades, sofreu durante a guerra o “bloqueio dos aliados”. Atravessou fomes 1941-43 e 1947-48 (mais de 45.000 pessoas morreram à fome.
A Solução para os problemas apontada pelo Governo Português continuava a ser a emigração, que foi facilitada e forçada em alguns casos. 200.000 pessoas emigraram entre 1940-73. Dos emigrantes terão eventualmente regressado metade.
O sector agrícola não foi melhorado e o Porto Grande continuou em Declínio. Diminuição do fornecimento de carvão. Em 1958 as companhias carvoeiras deixam o Porto Grande .

É no contexto dos anos 40 que Capote e amigos fundam o grupo Mandinga de São Vicente.
Capote foi uma figura popular, um fura-vidas, frequentava o Cais da Alfandega, Praia de Bote, Bar Boca de Tubarão, Ribeira Bote. Era uma pessoa estimada por todos, homem de mil actividades, buldónhe, estivador, foi emigrante em S.Tomé e Príncipe.
Capote foi um entusiasta de todas as festas populares, destacou-se no carnaval pela sua criatividade na criação da personagem Rei de Mandinga de São Vicente.

“Os Mandingas usavam uma coroa de penas, colares ao pescoço, pulseiras, pintavam o corpo de preto e faziam riscas brancas na cara e no peito e a encobrir os olhos traziam óculos de concha de mar, dando um aspecto feroz aos meninos que os seguiam, na mão traziam uma grande lança só para que lhes desse algum dinheiro de Festa de Carnaval."(Ramos, 2003).

Mandinga grupo étnico / Origem da Fantasia de Mandinga no Carnaval Mindelense
Os mandingos são um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental, com uma população estimada em 11 milhões.
Os mandingos pertencem ao maior grupo etnolinguístico da África Ocidental - o Mandè - que conta com mais de 20 milhões de pessoas (incluindo os diulas, os bozos e os bambaras).
Originários do actual Mali, os mandingos ganharam a sua independencia de impérios anteriores no século XIII e fundaram um império que se estendeu ao longo da África Ocidental.

Através de uma série de conflitos, primeiramente com os fulas (organizados no reino de Fouta Djallon), levaram metade da população mandingo a converter-se do animismo ao islamismo.
Os mandingos vivem principalmente na África Ocidental: Gâmbia, Guiné, Mali, Serra Leoa, Costa do Marfim Senegal, Burquina Faso, Libéria, Guiné-Bissau, Níger, Mauritânia, havendo mesmo algumas comunidades pequenas no Chade, na África Central.

Nos séculos XVI, XVII e XVIII cerca de um terço dos mandingas foi levado para os EUA como escravos.
Mandingas no Brasil colonial
Por serem mais instruídos que outros grupos e conhecerem a escrita, os mandingas eram geralmente escolhidos para exercer funções de confiança, dentre elas a de capitão do mato. Costumavam usar turbantes, sob os quais normalmente mantinham seus cabelos espichados.


Segundo o fotógrafo, Philippe Bordas, os caçadores formam uma espécie de fraternidade maçônica , onde os homens são recrutados por cooptação, sem discriminar de origem ou classe. Eles são a autoridade aldeia ,guardiões da justiça, e da família, mestres do conhecimento, de medicina tradicional, de caça e de magia.
O objectivo dos caçadores do Mali é combater a corrupção e o caos gerado pelo neocolonialismo.

Durante o Carnaval, a fantasia de mandinga permite ao indivíduo reinventar por alguns instantes uma identidade de grupo e representar o papel de um guerreiro que conquista o seu território e é liderado por um Rei com o qual se identifica em oposição ao sistema político económico do regime colonial.

As fantasias promovem também, o encontro e confronto dos diferentes grupos sociais através da brincadeira.
Fantasias carnavalescas criam um campo social de encontro, de mediação e de polissemia social, pois, não obstantes as diferenças e incompatibilidades desses papéis representados graficamente pelas vestes, todos estão aqui para ‘brincar’. E brincar significa literalmente ‘colocar brincos’, isto é, unir-se, suspender as fronteiras que individualizam grupos, categorias e pessoas. (Da Matta, 1997).

Segundo Cavalcanti (2011), o carnaval “... não resolve conflitos e desigualdades sociais, mas demontra uma face das coletividades que se ultrapassa a essas diferenças”.
Da Matta afirma que a brincadeira, ou seja o comportamento liberto, suspende temporariamente as “regras de uma hierarquização opressora”.

O “boom”de participantes nos grupos de mandinga actuais é uma característica recente na história desta fantasia e que reflete na ideia identidade de grupo. Os grupos de Mandingas representa um bairro, uma rua ou “que pode funcionar como afirmação ou como imposição de uma identidade” (CUCHE,1999)

Um dos principais problemas de desenvolvimento da ilha de São Vicente consiste na problemática do desemprego dos jovens em idade activa.

Numa festa marcada pelas diferenciação de classes sociais, a adesão à fantasia mandinga passou a envolver todas as camadas sociais.
Tradicionalmente, os quatro domingos que antecedem o carnaval são marcados pelo o desfile dos grupos de mandingas pelas ruas da cidade, acompanhados pelos mirones que observam dançando ao som da batucada e da música dos mandingas.
Actualmente, adesão em massa à fantasia de Mandinga poderá revelar uma necessidade do mindelense de  protestar contra os problemas sócio-económicos vividos na ilha de São Vicente.

Bibliografia

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiro de Castro. 2011, As Alegorias no Carnaval Carioca: visualidade espetacular e narrativa ritual. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro
CUCHE, Denis. Cultura e Identidade. In: A noção de cultura nas ciências sociais. Pg. 175 a 202. 1999
DA MATTA, Roberto. 1997 Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileira. Rocco, Rio de Janeiro:
LEACH, Edmund, 1967 O estudo estrutural do mito e do totemismo, Londres
RAMOS, Manuel Nascimento, 2003, Mindelo d’ Outrora, Edição de autor, Mindelo
RODRIGUES, Moacyr, 2011, O Carnaval do Mindelo, Formas de Reinvenção da Festa e da Sociedade, Representações mentais e materiais da cultura mindelense. Edição de Autor, Mindelo

Outros
www.Wikipédia.com

Linhas Gerais da história do desenvolvimento urbano da cidade do Mindelo, Publicação de Fundo de Desenvolvimento Nacional, Ministério da Habitação e obras









segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mindelo e a condição feminina, uma aproximação antropológica de António Aurélio Gonçalves (25/09/1901 – 30/09/1984)



A História da ilha de São Vicente dá conta das várias tentativas falhadas de povoamento. Desde sempre, os seus habitantes sofreram com crises económicas. No tempo áureo do Porto Grande, a maior parte da população vivia do trabalho das carvoeiras. A partir dos anos 30, o Porto Grande conheceu um declínio sem precedentes e, em 1958, as companhias carvoeiras deixaram o Porto Grande. A nível da saúde pública, em 1877, o abuso do álcool constituiu o maior problema social.

Os dados acima enumerados, demonstram os contornos estruturantes que marcaram definitivamente o sãovicentino. Em paralelo, apresentamos as passagens do autor que constituem descrições interpretativas do universo quotidiano do sãovicentino, de realçar, o sentido interventivo do autor.

“Talvez ainda vejamos a Ribeira de Julião reverdecer. São Vicente é terra de mudanças bruscas, de surpresas.” [3]161

 “São Vicente é pequeno, os prazeres são monótonos, mas esta nossa cidadezinha, bem explorada, rende. Aos domingos, pela manhã, eram mergulhos sem fim no mar da Matiota.

À tardinha, voltas também, infindáveis, na Praça Nova, gracejando com moças bonitas da época, ou então, discutindo futebol, ou mais raramente, qualquer ideia.” [4]83

“A aspereza do mato é um perigo, igualmente, o indiferentismo da vida cabo-verdiana mata as ambições intelectuais.” [5]156

“São Vicente viveu embasbacado no seu porto. Era fonte de vida. Eteno. Nada poderia enfraquecer a sua pujança. É natural: No meio da prosperidade, não nos lembramos que tudo acaba. Ele – o porto – ainda lá está. Mas a navegação que trazia que trazia vida desviou-se para outras paragens. O paquete passa largo; tem frigoríficos bem fornecidos; não compra da Ribeira de Julião, não alimenta o comércio, não deixa dinheiro. Os lavradores e desanimaram, retiraram-se.”[6] 163

Actualmente a ilha de São Vicente apresenta a maior taxa de desemprego das urbes do país. Já nos anos 70, o autor descrevia o mesmo cenário que temos diante dos nossos olhos, embora hoje em maior escala dado ao número de habitantes e de jovens em idade activa.

“A população não vive desafogada; sem contar um com o outro, tem um viver difícil. Esperam todos da cidade e da baía não dão para todos. Lutam… As mulheres “sobem” o seu cuscuz, fazem o seu giro, compram e revendem confeitarias… Mas isso tudo deixa pouco. É mais para que se não diga que uma pessoa está em fazer nada. Os homens andam pela cidade a ver se tiram um dia de serviço. Contudo resignam-se. Se há trabalho, arma-se a caldeira, acende-se o lume, come-se; se não há, assentam-se à sombra fresca dada por uma empena, visita-se o quarto de uma amiga onde haja reuniões, sonha-se com viagens ao estrangeiro e trabalho bem pago, conversa-se, joga-se dorme-se, procria-se”
.[7]Noite de vento, 24, 1970

Um estudo sobre o universo feminino em Aurélio Gonçalves, desenvolvido por Gama[8], analisa o trabalho do autor, lançando luz sobre o facto de a mulher ser a personagem mais valorizada.
“Tudo se desenrola por causa, em consequência e à volta delas, em função das suas histórias e das suas necessidades.” [9]51

“A condição feminina é pois um elemento estruturante da sociedade, não se tratando apenas de um simples tema de ficção literária, mas sim de uma substância cultural que se nutre a narrativa, ultrapassando de longe o lugar sexual do autor, destrinçando por completo o ser biológico que escreve, da escrita que produz, para representar e problematizar o mundo.” [10]

Olímplia, personagem da novela “Adeus ao vestido de baile”, em Terra da Promissão, é uma personagem que apesar de ter seguido todas as regras da doutrina de sedução mindelense para arranjar namorado (dar grandes passeios à tarde na praça nova), não conseguiu casar. “Segundo o povo, faltava-lhe o indefinível que chama e envisca, ou pode ser que ela não inspirasse confiança.”[11]

“Olímpia empregara-se e ganhava a vida sem marido” A rejeição do poder masculino e a rebelião contra os valores patriarcais faz com que essas mulheres educadas dentro dos padrões moralistas sejam consideradas à margem da sociedade.

Actualmente, organismos estatais e ONGs trabalham em sintonia no sentido de divulgar a mensagem da necessidade do empoderamento da mulher, como sendo um dos objectivos a longo prazo de desenvolvimento do país. Por exemplo, quanto à violência doméstica contra a mulher houve um avanço significativo no que toca ao poder de denúncia. Anteriormente, a formulação de uma queixa-crime junto da polícia de ordem pública não tinha utilidade relativamente à eficácia desejada. Hoje em dia, com a introdução de acções de formação junto dos agentes polícia e a criação de gabinetes de apoio às vítimas mudaram o conceito de denúncia. O acto de denunciar não só permite a resolução imediata do problema como também constitui uma medida de longo prazo para a consciencialização da sociedade do desafio a levar a cabo. Neste âmbito, houve avanços significativos apenas vencendo o silêncio contra a violência.

Mas ainda há silêncios a quebrar na questão da condição feminina, as mulheres se submetem, por vezes ao silêncio por causa da dependência económica em que se encontram. Hoje, ela trabalha fora de casa, por vezes, é chefe de família vivendo numa sociedade de moral patriarcal. Neste caso, a legitimidade do poder no homem não se verifica, há uma igualdade a nível dos fenómenos sócio-económicos. Mas os mecanismos inconscientes de resistência do sistema patriarcal sobrevivem, nas palavras, nas atitudes, nas letras das músicas, na festa, na difusão de imagens, etc. A obra de Aurélio Gonçalves dá exemplos dessa “resistência”
 O autor menciona passagens sobre festas, aludindo às “irregularidades conjugais ou sociais”.

“O baile nacional, na gíria dos boémios, era, nada mais, nada menos do que a reunião dançante que tomavam parte homens da sociedade, casados ou solteiros (ou gente com quem os primeiros já pudessem acamaradar e folgar) e raparigas do povo, escolhidas – sendo possível – entre as mais bonitas.” [12]P78
Pode-se dizer que desapareceram. Tinha ser. Não era das irregularidades conjugais ou sociais mais criticadas, mas as esposas, por via de regra, viam-no com maus olhos.

Os costumes de São Vicente, como é natural, evoluem e seria interessante – não me faltando a pachorra – pôr-me aqui a palpitar justificações. Quem sabe se a mistura de classes não levanta maiores escrúpulos actualmente, se o cabo-verdiano não rectificou a sua concepção de casamento. [13]P. 79



[1] António Aurélio Gonçalves “A visita de pêsames”, in  Terra da Promissão, Praia, Banco de Cabo Verde, p.62
[2] Idem, p.65
[3] António Aurélio Gonçalves “Lázaro”, in  Terra da Promissão, Praia, Banco de Cabo Verde, p.161

[4] António Aurélio Gonçalves “Reinaldo e suas cortesãs”, in  Terra da Promissão, 1998, Praia, Banco de Cabo Verde, p.83
5 António Aurélio Gonçalves “Lázaro”, in  Terra da Promissão, 1998, Praia, Banco de Cabo Verde, p.156
6idem, p.163
7António Aurélio Gonçalves “ Noite de Vento”, in  Noite de Vento, Praia, p.24
8António Aurélio Gonçalves “Reinaldo e suas cortesãs”, in  Terra da Promissão, Praia, Banco de Cabo Verde, p78
9 Gama, Maria João, 2009, O Universo feminino em António Aurélio Gonçalves, Lisboa,



[8] Gama, Maria João, 2009, O Universo feminino em António Aurélio Gonçalves, Lisboa,

[10] idem
[11] Idem, p.77

[13] Idem, p.79

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Filhos da luz na escuridão


Os astrónomos dizem que a luz está em extinção!!

Que a escuridão está devorando a luz.

Que os lugares escuros dominam o universo.

 O que é isso de escuridão? Que é mais do que a luz!

Esse ambiente oposto ao da "vida".

Escuridão que domina, que é maioria.

 Para nós, que brotamos e reproduzimos na luz.

Haverá tempo, espaço, que lógica para o escuro?

Essa natureza caberá no nosso entendimento?

O que é isso de escuridão?


“Uma conseqüência disso é que os pesquisadores, agora, sabem como vai acabar o Universo: ele vai crescer infinitamente, até se transformar numa insólita poeira de partículas atômicas, gelada, escura e mais rarefeita que o vácuo. É o apagão total – aquilo que vai restar quando não houver mais luz nas estrelas e até os buracos negros, os corpos mais densos e duros que existem, tiverem evaporado por completo. Os cientistas dão a esse processo o nome de “morte térmica”, causada pela tendência que têm o calor e todas as outras formas de energia de se espalhar democraticamente por todas as partes. No fim – não havendo mais centros de energia, como as estrelas –, nada mais se moverá dentro do Cosmo. Só ele mesmo, persistirá num crescimento sem fim e cada vez mais alucinante. Essa conclusão descartou de vez a possibilidade de que o Universo pudesse se expandir até certo ponto e depois começar a encolher, gradualmente.”

Fonte: Fhttp://super.abril.com.br/ciencia/muito-alem-big-bang-442240.shtml