quarta-feira, 10 de março de 2010

Quando o chão acaba

Testemunho de uma vítima de violência doméstica
A história de Samara


O meu ex. companheiro tem problemas de adicção de álcool e crack. No início não sabia que ele tinha esses problemas, vivíamos juntos, era tudo um mar de rosas. Ele era um moço muito bonito e criativo, inteligente… Comecei a notar um comportamento suspeito, por vezes ele mostrava-se muito contente, abraçava-me no meio da rua, fazia declarações de amor em público.. Outras vezes ficava com um ar longe e desligado. As declarações de amor começaram a ficar mais escassas. Passou a ausentar-se muito, não voltava para casa depois do trabalho e quando voltava dizia que estava a tratar os seus assuntos. Comecei a pensar que ele tinha outra pessoa. Até que um dia descobri um cachimbo feito manualmente no meio de umas roupas!! Fiquei apavorada, pois sabia que aquilo era muito mau sinal. Um dia ele chegou do trabalho e convidou-me para um passeio…Quando dei por mim estava num apartamento e um dealer de pedra. Levou-me com ele de madrugada para ir comprar uma coisa muito importante para descontrair-se porque o trabalho dele estava um stress, dizia. Consumia as pedras à minha frente e contava-me histórias, eu escutava petrificada e muito triste, chegou a perguntar-me se era servida…. Imagina, eu tinha ouvido falar da pedra e aquilo parecia-me um fim do mundo. Afinal aquela história maravilhosa que estava vivendo era um castelo de cartas. O mundo desabou.



Quando ele estava sob o efeito do crack vinha a paranóia de que o eu traía, não podia falar com nenhum homem nem ficar muito íntima com amigas, quando era sob o efeito do álcool ele tornava-se violento mesmo… Apresentei queixa contra ele, por agressão física… (ainda me lembro das caras de riso contido dos polícias e dos comentários “quando forem para casa vão entender-se”). Isso acontece frequentemente com algumas vizinhas minhas e amigas que vivem nessa situação por falta escolha, porque na maior parte das vezes, quem ganha mais são os homens delas, e elas trabalham a cuidar dos filhos, da casa, lavando roupas em outras casas…
Se neste momento estou livre das loucuras do meu ex. companheiro, não é pela acção da justiça, o consumo do crack levou-o a cometer vários crimes de roubo e, para fugir às consequências judiciais, ele decidiu passar uns tempos noutra ilha, aos poucos deixei de atender os telefonemas dele, arranjei outro companheiro e foi assim que me livrei dele.

Olha, um copinho de grogue custa 20$00, uma pedra de crack custa 200$00, às vezes pode ser mais caro ou mais barato, o acesso a esses produtos é cada vez mais fácil. Estão até nas portas das escolas, cada dia há mais meninos nessa situação e são cada vez mais novos. Quando vão para a escola as famílias já problemáticas ficam aliviadas por terem mais um para a escola cuidar. Mas na escola são tantos dentro de uma turma, mais de trinta para um só professor, por isso, passam despercebidos, cedo descobrem que estão por sua conta.

terça-feira, 2 de março de 2010

ALGUÉM AVISOU AS RABIDANTES?

Primeiros meses de 2010...

Este mar que nos liga e isola do mundo e que definitivamente nos separa uns dos outros não é nada face à unidade que sentimos agora em relação às mudanças climáticas. Credo! Tivemos um Carnaval mesmo calorento! Quem trajou as vestimentas menos pudicas, não sentiu o ventinho fresco e incomodativo (com todo o respeito à mãe Natureza) dos anos anteriores. Enfim!!! Funciona como que um descontrolo de fuso horário, a temperatura nos relembra o Verão. Mas é um Verão que sabe a artificial, sem o cheiro a mangas de terra, sem as caras novas típicas das férias. Um Verão em que os meninos ainda usam as fardas escolares...


Os meteorologistas responsáveis não avisaram às rabidantes que não era preciso trazerem casacos de peles sintéticas. Que mais não avisaram?


Agora sim, o medo começa a instalar-se mesmo. Hoje em dia , os pensamentos estapafúrdios e absurdos das noites de insónias voluntárias ou involuntárias, passíveis de ocorrer a um cabo-verdiano, incluem também solucionar mentalmente o problema: tsunami em Cabo Verde, que tipo de abrigos construir? Se as ondas tiverem mais de duzentos metros não é preciso pensar em soluções, ficaremos reduzidos ao que sempre fomos (dos restos da Atlântida perdida), numa versão mais molhada .


Mas se as ondas forem menos de duzentos metros, teremos de pensar em construção de abrigos, e se a insónia for daquelas ferradas, o pensamento vai mais longe, já estaremos a resolver problemas geológicos e matemáticos inventando inclusive fórmulas inéditas sobre como sobreviver aos desabamentos, aos esgotos a céu aberto, e por aí adiante...

As nossas tropas serão suficientes? Com a unidade climática, em vez de ajuda externa passaremos a ter ajuda interna. Ela chegará a todas as vítimas das mudanças climáticas mundiais?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O CRIME E O CASTIGO

Excerto do poema "O crime e o castigo"
Autor: Khalil Gibran
...


Como o Sol é o vosso eu-divino.
Não conhece os buracos da toupeira, nem as tocas da serpente.
Mas o vosso eu-divino não habita apenas o vosso ser.

Ainda é humano muito do que há em vós,
e muito do que há em vós ainda não é humano,
mas antes um pigmeu informe que caminha adormecido no nevoeiro
em busca do seu próprio despertar.

Agora gostaria de falar do homem que há em vós.
Porque não é o vosso eu-divino,
nem o pigmeu do nevoeiro, que conhecem o crime
e o castigo do crime.

Amíude, vos tenho ouvido falar de alguém que comete um delito
como se não fosse um de nós
mas um estrangeiro e um intruso no vosso mundo.
Ora eu digo-vos que assim como nem o santo
nem o justo se podem elevar
acima do mais alto que mora em cada um de vós,
também o malvado e o débil não podem cair
mais baixo que o mais baixo que mora em cada um de vós.

E assim como nem uma só folha se torna amarela
sem o silencioso consentimento de toda a árvore,
Assim o malfeitor não pode fazer mal
sem o oculto assentimento de todos vós.
Como em procissão caminhais juntos para o vosso eu-divino.
Vós sois o caminho e sois os caminhantes.

E quando um de vós tropeça e cai,
fá-lo para precaver os que vêm atrás dele
como advertência contra a pedra do tropeço.
Sim; ele cai por aqueles que vão adiante.
e que embora ágeis e de pé seguro, não afastaram a pedra do tropeço.

E ficai sabendo, ainda que as palavras caiam pesadas nos vossos corações;
O assassinado não é irresponsável pelo seu próprio assassinato;
E o roubado não está livre dos actos do malvado,
e aquele que não tem mancha
não está limpo das acções do réu.

Mais ainda; o culpado é muitas vezes a vítima do ofendido.
E, ainda com mais frequência, o condenado é que leva a carga
em vez do irrepreensível e inocente.

Não podeis separar
o justo do injusto e o bom do mau.
Porque estão juntos à face do Sol,
como são tecidos juntos
o fio negro e o branco.

E quando o fio negro se quebra;
o tecelão examinará toda a teia e todo o tear.
Se um de vós julga a esposa infiel,
Ponha na balança o coração do marido
E meça a sua alma com cuidado.

E aquele que quiser açoitar o ofensor
olhe bem, antes, o espírito do ofendido.
E se um de vós quiser castigar em nome da rectidão
e descarregar o machado contra a árvore do mal, olhe bem antes as suas raízes.

E, por certo, encontrará as raízes do bem e do mal,
do frutuoso e do estéril,
entrelaçadas no coração silencioso da terra.
E vós, juíses que quereis ser justos
Que sentença pronunciareis contra aquele que,
embora seja honesto segundo a carne,
É ladrão segundo o espírito?

Que pena aplicareis
àquele que assassina segundo a carne,
e é ele próprio assassinado em espírito?
E como julgareis, aquele que nas suas orações
é um impostor e um tirano
mas também ofendido e ultrajado?

E como processareis aqueles cujos remorsos
são já maiores que os seus delitos?
Não é remorso a justiça administrada
por essa mesma lei que tão bem quereis servir?

Contudo, não podereis impor remorso ao inocente,
nem arrancá-lo do coração do culpado.
Espontaneamente gritará de noite
para que os homens vigiem e pensem.

E vós que sois chamados a compreender a justiça,
como podereis fazê-lo a não ser examinando
todas as questões à plena luz do dia?

Só então sabereis que o justo e o caído
são apenas o mesmo homem de pé no crepúsculo
entre a noite do seu eu-pigmeu, e o dia do seu eu divino.
E que a pedra angular do templo
não é superior à pedra mais funda dos alicerces




Khalil Gibran

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

AVISO


Aviso


Não nos venham dizer depois

que não avisámos!


Podem brandir o chicote

e arreganhar os dentes

e espumar pela boca


(são serviçais...)



Podem metê-los em prisões

cadeias nos pulsos

correntes nos pés


(são serviçais...)


Podem humilhá-los

mil vezes massacrá-los

matá-los de mil mortes


(são serviçais...)


Mas depois

não nos venham dizer

que não vos avisámos
Ovídio Martins, 1962


Poetas de poucos anos atrás descreviam assim a nossa terra...
Tão viscerais as suas descrições e... agora... tão tabus as constatações!
Tão camuflados esses sentimentos !
Agora...dissmulados dentes serrados
E subtis os ecos, as reproduções...