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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Aqui há tempo a mais

Aqui há tempo a mais



“Tempo é dinheiro.” Um dito popular global do quotidiano usado com mais frequência em territórios onde há uma percentagem de activos profícua ao fenómeno do progresso.



Em alguns casos seria melhor dizer: “Tempo é tempo”.

No nosso país, por exemplo, a maioria desconhece a ligação real de tempo a dinheiro. Aqui o tempo sobra. Para as gentes da terra há sempre tempo.



A humanidade tem plena consciência do mapa cujos caminhos levam ao progresso, mas, alguns humanos ignoram esses mapas. Há culturas que preferem acreditar numa hipotética organização excêntrica do caos. Simplesmente para alimentar a doce ilusão de se ser infinito no tempo.



Em Cabo Verde, que é um país a caminho do desenvolvimento, a avidez de plenitude reflecte-se no consumismo, na cultura da superficialidade e na falsa simplicidade zen que finge cultivar o profundo mas não sai da bóia. Quando isso é regra num país como o nosso, perguntamos que tipo de desenvolvimento pretendemos alcançar? É um desenvolvimento que realmente leva ao progresso? O que estamos a fazer com o tempo que “temos”?



O sistema imunitário humano aprende uma lição com cada invasão e evolui. Os genes, por sua vez, passam de geração em geração apreendendo a lidar com “os tempos”.

Com o tempo somos mutantes. Tal como águas passadas não movem moinhos.

A evolução, de acordo com Darwin, é oportunista, aproveita as mudanças do ambiente para avançar. Isso para mencionar sobre o valor do tempo.

Em alguns cantos do planeta há uma consciência de preservação ambiental, temos o exemplo do conceito da modernidade: “desenvolvimento sustentável”, que no fundo significa: pensar e agir de acordo com o bem-estar e o progresso das futuras gerações.

No nosso país, embora seja pobre, promove-se atitudes consumistas, elitistas e impessoais que consequentemente geram vários problemas sociais que enfraquecem a massa humana. Essa busca da imortalidade simbólica através da sede de plenitude leva ao esbanjamento do tempo que por sua vez corrompe a condição de país em desenvolvimento.



Desvanece-se em simbiose com o tempo, embora muitos tenham a certeza que ao medi-lo estão a exercer controle sobre ele. A falsa certeza de se controlar o tempo tem sido o guia espiritual para muito boa gente. Uma ilusão que ainda mora secretamente no coração de muitos que recusam consciente ou inconscientemente usar o tempo de acordo com o conceito de “desenvolvimento sustentável”.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Carta de um estudante universitário nas ilhas

Caro Brother,



Há muito que não tenho notícias tuas, tudo bem por aí? Assim espero.

Tenho algumas novidades, como sabes completei 21 anos, sem perspectiva de emprego decidi continuar os meus estudos.

Sou estudante do ensino superior, acredito que ao estudar estou a investir no meu espírito e a participar no desenvolvimento humano do meu país.



Quando terminar o curso continuarei a investir no ensino superior, vou construir a minha universidade. Já estou a imaginar: Um edifício imponente de betão armado, de aspecto sóbrio por dentro de acordo com a suposta seriedade do mundo académico.

Ah, aquele doce branquinho alvo das paredes, aquele cheirinho a papel fresquinho saído da fotocopiadora. Outra coisa ahm, dzê lá amigo.

É preciso faro para o negócio. Havendo terreno, investe-se em cimento, gravilhas, tinta branca, pronto, meio caminho andado, depois pensa-se nos pormenores terciários da biblioteca.

Mas eu apostarei na qualidade, nada de propinas de 13 ou 18 mil escudos mensais, a qualidade exige preços muito mais altos…Sim, se as propinas forem mais caras ganharei mais… Os professores ganharão mais e estarão mais sorridentes, permitindo um melhor clima nas aulas, os alunos terão melhores notas e orientar-se-ão melhor uns aos outros nas teses. Nada de pensar pequeno…

O mercado está virado para o ensino superior. Se trabalhas na função pública e afins, não te apoquentes com a inactividade, ou com o tempo morto ou mesmo com tédio laboral. Ultrapassa o bicho papão do livro de ponto! Estude ou seja professor numa dessas universidades, assim todos ficam sábios e felizes.



Amigo, é com prazer que escrevo estas linhas singelas, pois eu sei que estas novidades irão certamente despertar em ti um imenso júbilo de ver tanto progresso ao mesmo tempo. Espero que passes um bom Verão e esteja atento, onde há um terreno baldio, daqui a dias será uma alva, bela e primorosa universidade.



Com amizade



Bro.



PS: Brother, brother junta-te a nós e serás bem-aventurado.

e se não sabes gingar, então conta uma história (o mais pequeno irá cercar depois)

junta-te a nós, somos o futuro!! Turo uro uro uu

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Estamos em festa

Estamos agora a celebrar simbolicamente a democracia, durante duas semanas temos festa quase todos os dias, sim o país está em festa.
Estamos em festa, os jovens sentem que têm o poder de decidir pelo seu país, muita sedução no ar…
Estamos em festa, combinamos encontros românticos em comícios, mascaramo-nos das bandeiras de nossas convicções, é verdade, sorrimos mais… Mais meninos vão nascer daqui a 9 meses…
Estamos em festa. Cada um com a sua ideia, sabemos que isso é bom…Rosnamos uns com os outros porque sabemos, consciente ou inconscientemente, que isso é importante para todos… E fosse sempre o mesmo também não haveria piada nenhuma. Uns mergulham em utopias, outros em batalhas supérfluas e o mecanismo funciona.

 Estamos em festa, é só sorrisos e jejum de reuniões com conteúdo vazio e de espezinhamento verbal, é preciso aparentar doçura, não vá o diabo tecê-las.

Os partidos apostam fundos e energia para transmitirem as suas ideias da melhor forma possível. Aqueles que apostam no partido do governo festejam numa ardência de orgulho e emocionalmente convictos. Os que apostam nos partidos de oposição festejam convictos e emocionalmente certos de necessidade de mudança. Contudo estamos cientes que a festa tem um outro lado.
A Ciência política trabalha um conceito instrumental denominado de clientelismo. Como funciona isso aqui em Cabo Verde? Por exemplo: Uma pessoa rica, fanática por um determinado partido financia o mesmo em vários aspectos, isso não é novidade, mas é tabu. É claro que todos temos o direito a um fanatismo qualquer. Mas há fanáticos cegos que apresentam uma preguiça mental e uma mesquinharia tal que todas as suas acções vão contra o progresso. Este tipo de fanatismo compra pessoas que em troca se convertem automaticamente. Este tipo de fanatismo promove a mediocridade e a superficialidade, promove o plágio, e a falsidade em assuntos que quanto mais autênticos melhor, em assuntos carentes que passam longe do superficial. E os seguidores manteigueiros igualmente avarentos, assumem descaradamente a sua falta de criatividade e vestem uma roupagem de tipo policial para que ninguém ouse criar… Por isso, um apelo: mais cuidado na selecção dos lunáticos….Please!!!

sábado, 15 de janeiro de 2011

"O departamento da Cultura"

Na imagem: O "departamento da Cultura" em Cabo Verde



O “departamento da cultura” é ainda considerado algo a pensar antes (das eleições, nas inaugurações de tipo o rei vai nu) para se obter aclamação dos eleitores autómatos . E depois, “deixem os cães ladrarem, que a nossa caravana vai passar”- pensam.. No dia em que se começar a considerar a cultura como órgão vital do corpo, em vez de brincos de côco, talvez se fale deste departamento com algum respeito e não com silêncios insultuosos. Em campanha eleitoral ficar calado sobre assuntos que se pressentem delicados é uma opção pouco nobre. “A maioria não repara no silêncio”- pensam. Como se diz mais vale ser-se dono do silencio do que escravo das próprias palavras.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um passo

Na década de 30, falar de exclusão social era blasfémia, então, eis que surge um grupo de intelectuais determinados em lutar pela ruptura do sistema, para a justiça social e para a liberdade do homem. Os claridosos.

Leia-se um dos poemas de Osvaldo Alcântara (pseudónimo de Baltazar Lopes da Silva), um dos responsáveis pelo movimento Claridade.

Passaporte para Pasárgada

«Pasárgada não é lugar a comum.

Lá quem manda é o Rei,

que é amigo dos horizontes

e ouve as cantigas que os meninos cantam

na Rua Direita e na Rua do Sol»

«Quem tenha ouvidos e oiça, que vá.

Os surdos não entram em Pasárgada

Os surdos, entrego-os na misericórdia de Cristo,

que os há-de aperfeiçoar para a próxima reincarnação

Nesta não entram em Pasárgada.»

«Oh! Rei! Pela tua magnificência,

Concede mãos aos homens

para poderem ser cidadãos de Pasárgada…»

Extrato do poema «Passporte para Pasárgada» da obra "Cântico da Manhã Futura"

de Osvaldo Alcântara,

Este foi e é o nosso país…

A distância temporal dos anos 30 para o presente é apenas uma ilusão!

O inimigo é sempre o mesmo e não dorme, é omnipresente.

A construção do nosso país não está apenas nas mãos de meia dúzia de pessoas como nos querem fazer acreditar!

Sua Excia daqui e Sr. Ministro dacolá...O nosso vocabulário tem mais do que isso!!!

Tem também o senhor. Fulano, menina Beltrana, senhora Sicrana..

Atenção: Somos mais!! E cada um com a sua ciênca. Somos um só, somos o poder.

É preciso incluir a palavra Humildade no nosso quotidiano para podermos acreditar em nós mesmos e nos outros! Se ficarmos nesse ciclo vivioso do "o que fizeres hoje, eu destruirei amanhã quando estiver no poder" vai ser o fim, porque, assim esgotaremos os recursos, e a nossa sociedade entrará em descalabro, assim como acotece com o o equilíbrio da Natureza quando sucede o abuso dos recursos naturais.

Vamos rasgar as palavras de grandeza, não queremos ser grandes, queremos apenas existir com dignidade! Se escolhermos ficar grandes e vazios, podemos morrer de fome. Não somos balões!

Tenhamos em atenção ao nosso património natural e cultural porque eles existem e apresentam-se ao alcance dos nossos sentidos, e somos suficientemente racionais para cuidar dele, não somos animais irracionais!!

Os nossos antepassados ensinaram-nos a lutar pela justiça social para um Cabo Verde melhor.

Sim é difícil tirar os olhos do chão porque temos que trabalhar a “terra”, ok. Temos que criar os nossos filhos ok. Mas é exactamente por isso, para fazermos melhor é preciso olhar para o geral para compreendermos o particular e avançar. Ás vezes é preciso darmos um passo para trás para podermos continuar a jornada.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Awake

Dedicado a Cordá Monte Cara
AWAKE

Shake dreams from your hair
My pretty child, my sweet one.
Choose the day and choose the sign of your day
The day's divinity
First thing you see.

A vast radiant beach in a cool jeweled moon
Couples naked race down by it's quiet side
And we laugh like soft, mad children
Smug in the wooly cotton brains of infancy
The music and voices are all around us.
Choose they croon the Ancient Ones
The time has come again
Choose now, they croon
Beneath the moon
Beside an ancient lake
Enter again the sweet forest
Enter the hot dream
Come with us
Everything is broken up and dances.

lyrics: the doors

sexta-feira, 21 de maio de 2010

REVOLUÇÃO NOW

Onésimo Silveira em Entrevista no A Semana de 21 de Maio de 2010

"A regionalização administrativa não vai ajudar porque não vai impedir a concentração do poder na Praia e não assegura a distribuição equitativa dos recuros da Nação."



"É preciso que as regiões sejam dotadas de poder de decisão para poderem participar realmente no desenvolvimento do país. Quem está a participar no desenvolvimento do país são os partidos políticos através da Assembleia Nacional , as regiões não. E elas têm que ter um papel dinâmico na solução dos problemas políticos, de desemprego etc"

Alguns factos marcam etapas decisivas na história dos países, mas entrevistas como estas preenchem lacunas abismais sobre o modo de pensar Cabo Verde.

Onésimo Silveira é Doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Uppsala, Suécia, é um dos intelectuais africanos mais conceituados a nível internacional. Foi quadro superior nas Nações Unidas e representante diplomático desta organização em Moçambique, Somália e Angola.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sequestro na Camara Municipal de São Vicente

Sobre a invasão da Câmara Municipal de São Vicente. É mesmo, aquela instituição de respeito, onde as pessoas trabalham para o bem estar e o progresso do município foi invadida, cercada e fechada durante um dia inteiro. Ninguém podia entrar, ninguém podia sair. Algumas pessoas foram presas, pessoas importantes mesmo, outras foram submetidas a interrogatórios infinitos. Do lado de fora, um aglomerado ligeiramente curioso, mas não havia ninguém a gritar: Soltem-me estou inocente, ou coisa do tipo...
São os bafos do fenómeno que se veste de um nome pomposo: co..rru..p..ção. Em crioulo é: caçu bodi mesmo, parece diminutivo porque termina em di mas o significado igual. Como se trata de uma classe de respeito há que usar uma espécie de suavizante para denominar acções cometidas por aqueles que trabalham em escritórios com ar condicionado, frigobar e carimbos decisores. E hoje ao fim da tarde houve uma manifestação a favor dos caçubodeiros de finas rendas. Sim reclamam por causa do sequestro e pedem justiça. Isso dá que pensar.

Mensagem do cartaz: "A população indignada com o sequestro na Câmara Municipal"

Simbolicamente essa manifestação diz: "Queremos que continuem com os negócios camuflados, não investiguem nada nada nada. Só uma minoria deve prosperar, a minoria que merece prosperar, queremos que continuem a desviar as verbas previamente destinadas para a juventude. Não queremos jovens a praticar desportos como patetas. Queremos sim jovens altivos cheios de grogue e minhocas na cabeça para não questionarem nada. Queremos mais jovens a seguir o exemplo desses pobres injustiçados que foram sequestrados pela polícia"


Façam fóruns, reflictam sobre a violência e a delinquência, isto é, tapem o sol com a peneira!! Clap clap clap... Pois aqui o chão está quente, o povão ruidosamente afirma que não quer saber de "coisas para todos". O que o povão quer é criar uma sociedade de minorias boas e bem estratificadas para poderem continuar um desenvolvimento disforme.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Partidos A e B

Homo homini lupus est
O homem é lobo para o homem
Versão cabo-verdiana


Viver em Cabo Verde significa ser de um dos partidos A ou B. Se decides pintar um quadro és sem dúvida do lado A; os do lado B reconhecem-se pelos penteados... Está tudo em compartimentos de dois. Assim ninguém se engana...
Cada um tem o seu gosto e todos são felizes por escolherem o seu lado como quem tem preferência por um determinado lado de uma cassete. E tudo está bem, quando acaba bem.

Mas como é que algo pode estar bem quando o fanatismo dita a forma de estar de um povo. Como diz Kertész, "o fanatismo dessemina o ódio, ninguém se salva nesta batalha que só tem perdedores."
O discurso do ódio em Cabo Verde a passo galopante, as palavras de ilustres e de ilustríssimos sobre assuntos aparentemente banais são automaticamente convertidos em fanatismo. E o ódio vai tomando conta de todo o tecido social...No trabalho, na rua, na Tv, no supermercado, na rádio, na discoteca, nos blogs, nos jornais on line...
Agora estão todos à espera de uma intervenção divina, ou uma espécie de raio laser para travar a violência nas ruas.

"O elelmento que as pessoas estão dispostas a repudiar é o amor e a necessidade de ser amado... Prefere-se conceber o ser humano como uma criatura cujo institinto predominante é a agressividade. Assim o próximo é não apenas um potencial ajudante, ou um objecto sexual, mas também alguém sobre o qual se pode satisfazer a necessidade de agresssividade, explorar a sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderear-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo - Homo Homini lupus est" O mal-estar da civilização, de Sigmund Freud



Ser das ilhas de Cabo Verde



A cabo-verdianidade contém no seu âmago conceptual contextos da História cabo-verdiana que começam com a descoberta e o povoamento das ilhas. Partindo duma hipótese analítica baseada no marxismo, podemos resumir que a construção conceptual da cabo-verdianidade é sustentada por três fases basilares: 1ª Fase: A dominação colonial; 2ª fase: O questionamento ou o processo de emancipação (que começa com os pré-claridosos, passando pelos claridosos e finalmente as teses independentistas); 3ª fase: A Independência e a vida pós independência. Enquanto que o senso comum diz que o sistema colonial acabou e está enterrado, a História e a Antropologia Social e Cultural afirmam que ele está presente em cada gesto do cabo-verdiano do tempo presente.
Propomos um roteiro documentário que pode espelhar uma infinitésima parte daquilo que é ser cabo-verdiano e viver nas ilhas de Cabo Verde.
Cenário 1: ano 2010 Hora de ponta, meio-dia e meia ou sete horas da tarde, é a dança urbana dos uniformes escolares: Fardas de várias cores: castanho, a azul claro, azul-escuro, verde e cinzento, cada cor uma escola secundária. Um desfile colorido com vida própria, que se repete em todas as gerações. Cada aluno com o destino traçado à partida pelo contexto e pelas decisões ou atitudes do presente. Uns passam a passo lento, outros quase a correr, uns a conversar, outros saboreando as iguarias das vendedeiras de balaio. Por vezes, entre montes de palavras soltas, ouve-se um comentário: “O professor fulano de tal ê um bom diab d inferr!” E pensamos ora com orgulho, ora apreensivos: «Esses meninos são o futuro desta terra…»
Cenário 2: Finais dos anos 70, anos 80, os primeiros anos da tomada da independência, tempo de glória e de afirmação de uma nação independente. É a altura da valorização dos cursos superiores. Legítimo, pois; durante a fase imediatamente após a independência o objectivo era munir o país de quadros superiores. O problema é que a moda do «curso» chegou e instalou-se por mais de trinta anos, de tal maneira que tomou conta das camadas subcutâneas do ADN cabo-verdiano, levando ao surgimento da cultura da sobrevalorização dos cursos superiores no país.
Cenário 3: Hoje em dia há quem abomine a designação “doutor” e chega mesmo a afirmar que em termos de quadros, o país é uma espécie de recipiente cheio de pseudos e uma fina película na borda dos que são realmente doutores, melhor dizendo, os reconhecidos ou pelo poder ou internacionalmente. Mas como chegámos a tal ponto? É que o termo doutor já passou por várias fases: inicialmente, quem tinha o grau de licenciado era com respeito designado por doutor, posteriormente essa designação passou a uma palavra corriqueira do quotidiano, e actualmente é utilizado como termo pejorativo por muito boa gente.
Cenário 4: Ultimamente, fala-se em cursos técnico-profissionais, mas para este novo paradigma é preciso investir no marketing de consciencialização da importância desse sector de ensino. Porque alguns completam o secundário da Escola Industrial e Comercial com conhecimentos de electricidade, oficina, etc e o sonho legítimo de cursar não permite a aplicação efectiva de tais conhecimentos. Outros seguem a via técnica como profissão, são bem sucedidos e, como sempre, uma minoria evolui para as empresas importantes do mercado. O ponto fraco dessa minoria é que muitas vezes seguem o mesmo modelo de monopólio típico das grandes empresas. Esses monopólios têm as seguintes características comuns: o cliente larga os seus afazeres diários, para ficar à espera durante um ou dois dias, numa fila tentando fazer um contrato e é recebido pela divindade «Atendimento» que apresenta um chicote em vez de simpatia e agilidade. Para os clientes reivindicativos, que reclamam os seus direitos, existe sempre um formulário mágico para cada tipo de reclamação. O resultado é que ele vai para casa baralhado, com uma explicação super técnica e, de tão cansado de esperar, decide embarcar no esquema. Estas são das estratégias mais conhecidas dos monopólios em Cabo Verde; trata-se duma herança colonial sobreaproveitada pela mente capitalista cabo-verdiana, um autêntico paraíso para os investidores externos. Perguntamos: como fica o desenvolvimento de um país em crescimento no meio desta salada?


quarta-feira, 10 de março de 2010

Quando o chão acaba

Testemunho de uma vítima de violência doméstica
A história de Samara


O meu ex. companheiro tem problemas de adicção de álcool e crack. No início não sabia que ele tinha esses problemas, vivíamos juntos, era tudo um mar de rosas. Ele era um moço muito bonito e criativo, inteligente… Comecei a notar um comportamento suspeito, por vezes ele mostrava-se muito contente, abraçava-me no meio da rua, fazia declarações de amor em público.. Outras vezes ficava com um ar longe e desligado. As declarações de amor começaram a ficar mais escassas. Passou a ausentar-se muito, não voltava para casa depois do trabalho e quando voltava dizia que estava a tratar os seus assuntos. Comecei a pensar que ele tinha outra pessoa. Até que um dia descobri um cachimbo feito manualmente no meio de umas roupas!! Fiquei apavorada, pois sabia que aquilo era muito mau sinal. Um dia ele chegou do trabalho e convidou-me para um passeio…Quando dei por mim estava num apartamento e um dealer de pedra. Levou-me com ele de madrugada para ir comprar uma coisa muito importante para descontrair-se porque o trabalho dele estava um stress, dizia. Consumia as pedras à minha frente e contava-me histórias, eu escutava petrificada e muito triste, chegou a perguntar-me se era servida…. Imagina, eu tinha ouvido falar da pedra e aquilo parecia-me um fim do mundo. Afinal aquela história maravilhosa que estava vivendo era um castelo de cartas. O mundo desabou.



Quando ele estava sob o efeito do crack vinha a paranóia de que o eu traía, não podia falar com nenhum homem nem ficar muito íntima com amigas, quando era sob o efeito do álcool ele tornava-se violento mesmo… Apresentei queixa contra ele, por agressão física… (ainda me lembro das caras de riso contido dos polícias e dos comentários “quando forem para casa vão entender-se”). Isso acontece frequentemente com algumas vizinhas minhas e amigas que vivem nessa situação por falta escolha, porque na maior parte das vezes, quem ganha mais são os homens delas, e elas trabalham a cuidar dos filhos, da casa, lavando roupas em outras casas…
Se neste momento estou livre das loucuras do meu ex. companheiro, não é pela acção da justiça, o consumo do crack levou-o a cometer vários crimes de roubo e, para fugir às consequências judiciais, ele decidiu passar uns tempos noutra ilha, aos poucos deixei de atender os telefonemas dele, arranjei outro companheiro e foi assim que me livrei dele.

Olha, um copinho de grogue custa 20$00, uma pedra de crack custa 200$00, às vezes pode ser mais caro ou mais barato, o acesso a esses produtos é cada vez mais fácil. Estão até nas portas das escolas, cada dia há mais meninos nessa situação e são cada vez mais novos. Quando vão para a escola as famílias já problemáticas ficam aliviadas por terem mais um para a escola cuidar. Mas na escola são tantos dentro de uma turma, mais de trinta para um só professor, por isso, passam despercebidos, cedo descobrem que estão por sua conta.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

AVISO


Aviso


Não nos venham dizer depois

que não avisámos!


Podem brandir o chicote

e arreganhar os dentes

e espumar pela boca


(são serviçais...)



Podem metê-los em prisões

cadeias nos pulsos

correntes nos pés


(são serviçais...)


Podem humilhá-los

mil vezes massacrá-los

matá-los de mil mortes


(são serviçais...)


Mas depois

não nos venham dizer

que não vos avisámos
Ovídio Martins, 1962


Poetas de poucos anos atrás descreviam assim a nossa terra...
Tão viscerais as suas descrições e... agora... tão tabus as constatações!
Tão camuflados esses sentimentos !
Agora...dissmulados dentes serrados
E subtis os ecos, as reproduções...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Temos de tudo

TEMOS:
Aeroporto internacional sem condições para receber voos internacionais nocturnos;
Universidades sem bibliotecas;
Instituições culturais sem autonomia;
Projectos de restauro milionários;
Projectos de reutilização de edifcios restaurados sem estudo de viabilidade;
Instituições de comunicação social desligadas da comunidade;
Seminários sobre património cultural para profissionais de todo país, como sinal de "descentralização";
Cadeia civil sobrelotada;
Burocracia dependente;
Cinemas extintos;
Centro Nacional de Artesanato extinto;
Hospital sem reagentes para detectar a dengue;
Marina aberta para o que der e vier;
Escolas secundárias sem laboratórios;
Escolas secundárias sem espaço para a prática de educação física;
Gangs organizados;
Professores univesitários que leccionam cadeiras de outras áreas de competência;
Clientes exlusivos para compra de terrenos;
.... (tudo isso e muito mais na paradisíaca ilha de São Vicente)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Miss GANG, para quando?

Lembro-me dum tempo em que São Vicente ficava em estado de alerta quando os famosos bandidos, Rob Djula e Tectec fugiam da cadeia. Ouvia-se dizer que eles fugiam para as rochas, como nos filmes de coboi, e lá eram capturados, através emboscadas com direito a tiroteio e tudo. Ficávamos imaginando as cenas e principalmente como seria o aspecto físico de Rob Djula e do Tectec. Como nos filmes todos são bonitos, imaginava-os bem parecidos. O tempo foi passando, os filmes de coboi passaram de moda, chegaram os filmes dos gangs americanos. Acompanhando o ritmo de Hollywood, a população aumentou, daí, o número suficiente de pessoal para protagonizar o papel ganguístico. As actuações mais espectaculares são sazonais, no Carnaval, no Halloween, e na época natalícia.

Antigamente também as raparigas que ficavam em primeiro lugar nos concursos de Miss, ganhavam fama, viagens, e outros prémios pomposos. Realizava-se Miss São Vicente, Miss Liceu e Miss Cabo Verde. Com o tempo, e mais uma vez, com o factor demográfico, passamos a ter também Miss Escolas Secundárias, Miss Praias, Miss Bairros, etc.

Pouco mudou, no fundo... Continuamos a tentar imaginar as caras dos bandidos, (os gangs assassinos), e, por outro lado, continuamos a ver raparigas menores praticamente nuas na TV nacional. Reportagens e debates da imprensa abordam seriamente os temas da prostituição fina em CV, e da prostituição infantil, e no mesmo dia passa um programa Verão 2009 de Miss Praias. As Miss premiadas de hoje ganham pouco mais que a fama, no bairro, no liceu, no verão, na ilha...Mas a fama tem um pormenor, dura pouco tempo.
Quanto aos Gangs, a cena muda de plano, para lá dos míseros cinco minutinhos. Violência gera violência (em casa, no bairro, na praia, na ilha, no Carnaval, no Natal e no Halloween). Os filmes políciais também mostram que quem é assassino uma vez, pode voltar matar mesmo que seja muitos anos depois.
Posto isto, uma questão fica no ar: Já que passamos de país subdesenvolvido para país de desenvolvimento médio, porque é que não imitamos também aquelas leis dos países desenvolvidos em que as caras dos bandidos são exibidas em todas as estações televisivas e deixamos as caras das vítimas em paz?! Porque é que, paralelamente aos debates sobre prostituições não se proíbe imagens de menores seminuas nas estações televisivas do país?!

Se isso não for possível, porque não organizar concursos de miss e mister gang? Assim, criávamos um novo produto dois em um.


Imagens: www.fottus.com

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cabral e o Medo

O maior teórico independência de Cabo Verde diria que ainda não somos um país independente. Diria que ainda há muito trabalho a fazer. O sistema de hoje é copy paste do regime colonialista. Assim como na época colonial, o medo é ainda a ferramenta principal do poder. Antigamente era o medo de ser enviado para outra parte do planeta, hoje é o medo de opinar contra, para não ser eliminado pela grande família. Antes eram o portugueses colonialistas e não os portugueses das ilhas, a desfrutarem dos direitos, que teoricamente eram para todos. Hoje os direitos que teoricamente são para todos, são na prática para grupos de interesses comuns em relação aos que realmente têm competência. Hoje não temos a Pide para fiscalizar e censurar tudo. Temos sim formas subtis de silenciar pessoas. Boicote de projectos, assédio moral no trabalho (ou mobbing), violação de direitos de autor...

E o que diria Amilcar Cabral quanto a esses fenómenos?

"Todos os abusos, todos os privilégios de grupos ou grupinhos, não podemos aceitar na nossa terra amanhã, se de facto queremos libertar o nosso povo. Não vamos libertar o nosso povo só dos colonialistas tugas, não, mas de tudo quanto prejudica o caminho do progresso. Temos que destruir a ignorância, e toda a espécie de medo, a pouco e pouco, passo e passo. Quando conseguirmos isso, teremos libertado de verdade o povo da nossa terra. Porque a maior pressão que existe sobre e um povo, não é a dos colonialistas camaradas, não é a falta de trabalho, é o medo.”
*


Nos serviços públicos, tratam os utentes como se fossem delinquentes presos. A única forma de demonstrarmos que não temos medo das suas caras feias é igualarmo-nos a eles, em termos de poder, isto é, falar em português. O feitiço quebra-se imediatamente. E isso não é apenas simplesmente herança colonial, isso reflecte como o medo é ainda a ferramenta preferida dos pequenos e dos grandes poderes.

*Cabral, Amilcar Resistência política, 1970

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A tirania em nós

Nesta terra calamos demais, mas nem todos o fazem.. Alguns esguelam esguelam e cansam-se. É verdade, cansamo-nos quando vemos que o cortejo simplesmente continua o seu rumo ao mesmo ritmo. Uns carregando a nostalgia da familiaridade e da simplicidade do quotidiano de antigamente. Outros carregando a falsa leveza do conformismo que é anti-vida. Afinal estamos no mesmo ponto. Anos 20, anos 60 séc.XXI, tudo farinha do mesmo saco. Tudo num prato infinitamente raso. A prova é que se experimentarmos fechar os olhos podemos sentir a presença de um passado à nossa escolha.Está tudo na nossa mente e o que está dentro dela também é real.



Afinal nada se move. Muitos dizem: "Nesta terra, trabalhar para o Estado é frustrante, não há espaço para criatividade..." Como explicar essa contradição para uma criança (é que elas estão cada vez mais interessadas e têm acesso à internet). Cedo elas vão aprender que o telejornal nacional passa apenas inaugurações, seminários que prometem mudar coisas, pessoas com caras sérias e distantes apresentando vestes tipo fardas de tropa de cores neutras e tristes, as notícias não variam muito, é a oscilação de preços, e pessoas que reclamam, uma ou outra cena mais emocionante, tipo , um poste de luz que caiu, ou fulano que agrediu sicrana. Cedo as crianças vão entender que não vale a pena ver o telejornal e que é internet que dá informação... Será que as crianças de hoje darão continuidade a esta vida fictícia retratada no telejornal? Que rumo tomará tudo isso? Será que aquilo que escrevemos nos blogs, denunciando, criticando dará luz a uma nova realidade paralela à realidade fictícia do telejornal. Ou nós os blogueiros ficaremos sempre à margem, esquecidos? Seremos todos hipócritas??

Termino post desanimado com uma passagem de um poema de Khalil Gibran cujo o tema é liberdade."E se é um tirano quem quereis destronar,vede, antes de tudo, se o trono dele em vós está bem destruído.Porque, como pode um déspota dominar os livres e altivos, se não houver tirania na liberdade desses e vergonha na sua própria altivez?"

domingo, 20 de setembro de 2009

Entrevista de última hora (exclusivo)

Falar da chuva que escancarou invadindo tudo
e depois passou descomprometidamente, como que dizendo
"decidam-se".
Vamos ouvi-la:
"Chovo quando quero e não quando me mandarem, se não têm balaio para me amparar problema vosso, caio em estillo!
Promovo o prazer do contacto com a lama num leque variado de graus humidade, lama líquida ou molinha, lama mais dura, tipo brigadeiro. Lama fria, lama quente, lama que coça, lama que cura...Enfim. Além disso promovo também ambiente romantico para casais recém apaixonados, (adoro participar do beijo).
Que mais querem!! Não me evocaram com a música, então caio, caio em estilo, proporcionando paisagens emocionantes, imagens fantásticas tipo filmes de ficção científica.
Todos falam de mim, que mais querem, torrencial eu?!
Eu que que promovo a reconciliação e a solidariedade?? Torrencial eu?! Ou pensavam que a minha natureza era apenas (tipo ping...ping) ? Não, não é assim, também gosto de adrenalida...... Desculpem-me se exagerei. Mas é a minha (nossa) natureza. Vocês não gostam de desportos radicais, e festas badaladas cheias de gente garrothada, etc? Porque é que eu não posso caprichar na minha performance? Mostrar que o mundo pode ser visto de outra forma e lembrar-vos da força da minha (nossa) mãe. Ai ai, decidam-se... Sinto-me aliviada, porém culpada, por todos os estragos....Despeço-me na certeza de que se lembrarão de mim com ternura, não pensem em mim com temor, ou raiva, não sou assim. Quem sabe se para a próxima estaremos mais em sintonia.... Para a próxima tentarei dançar apenas no lado direito da estrada para poderem passar no lado esquerdo... Tentarei procurar desesperadamente um balde ou outro recipiente e nao esbordiarei (mas não tenho a certeza). Passei, alguns têm saudades outros nem por isso."*
*Extrato de entrevista por telefone com Dona dos Chuviscos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Carnaval na Capital

Entretanto, de vez enquanto aparecem uns jornalistas armados em espertos a perguntar que inovação fez o museu. Um museu em São Vicente por si só é uma inovação. Pergunto quantos deles frequentam as bibliotecas que têm uma função similar aos museus?! Será que querem mesmo saber a verdadeira resposta? Querem mesmo saber que desde a inauguração (Novembro de 2008) ainda o museu não tem verba de funcionamento, e que as obras dos anexos só terminaram na semana passada?
Esses sim, esses alienados são os grandes agentes da centralização dos poderes na capital. Não se trata de bairrismo, pois, como podem ver, uma grande fatia dos cérebros de CV está na Praia. Em vez de lutar contra este o monstro baboso, esses agentes pisam os amigos, os colegas e a família para poder atingir um lugar ao sol lá na Praia. E quando já todos estiverem lá, será um Carnaval sem fim, (quem tem o carro maior, quem tem piscina em casa, quem tem casa de campo, quem tem mais amantes, quem tem mais ouro, quem é mais esperto, quem tem mais operações plásticas, quem faz mais viagens, etc).
Graças a Deus o espírito reivindicativo do Capitão Ambrósio ainda cá canta! Isso é um problema a nível de todos os ministérios, em todas as ilhas. Nesta guerra fria, temos que falar tudo, pôr tudo a descoberto porque o sistema é silencioso, repressivo, funciona por debaixo de camuflagens e tende a ser implacável. (típico da extrema direita, e não estou a falar de partidos políticos).
Se fosse há poucas dezenas de anos atrás a autora deste post seria enviada para o Deserto, sem nunca mais poder voltar a CV, mas como isso já não é bom para a imagem dos governos os autores de posts como este, apenas constarão dos ficheiros como os maluquinhos do reino.